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14 de set de 2010

para pensarmos a teoria e prática militante:


5 SONHOS DO ZAPATISMO, 5 SONHOS PARA A RESISTÊNCIA

César Enrique Pineda Ramírez


18 de fevereiro de 2005.

Imaginem por um momento que o capitalismo é uma edificação. Uma voluptuosa e faraônica obra que a humanidade construiu nos séculos recentes. Um sólido muro, quase perfeito que não pode desintegrar-se, já que os materiais com que é feito são a dominação, a exploração e a alienação. Se alguém olha o muro, parece que não há forma de derrubá-lo. Parece impenetrável, inexpugnável. Não há maneira de escapar do muro.

Aproximen-se agora um pouco do muro. Olhem detidamente. Seus olhos têm que fazer um grande esforço. O muro... tem uma fenda. É uma pequena rachadura, quase imperceptível. Por essa abertura, se uma pessoa focaliza bem a vista, parece que se pode ver do outro lado. Mas a rachadura não deixa ver muito bem. É uma fissura, que parece, não faz nenhum dano à solidez do grande muro. Essa fissura,é o zapatismo.

O zapatismo nos ajuda a ver do outro lado. A sonhar com o outro lado, já que mal podemos ver uma pequeníssima parte. Alguns dizem, que esta idéia é uma ilusão, algo infantil, mal uma quimera juvenil, desorientada e confusa. Nós cremos que é uma possibilidade, uma rota por explorar, um caminho que quiçá podemos caminhar.

O zapatismo nos ajuda a pensar ao inverso. De fato, em muitas formas, é uma revolução ao inverso. É um exército que não usa suas armas. São revolucionários que falam de amor. É uma forma de fazer política que não procura tomar o poder. São indígenas pobres, não uma vanguarda iluminada cujo programa, liderança e carisma se tenha que seguir cegamente.

O zapatismo tem muitas possibilidades de interpretação e de leituras. Façamos uma mais. Reorganizemos as contribuições do zapatismo às resistências do México, América e o mundo, para dizer que são cinco.

Comecemos por uma delas.

1) Por um mundo onde caibam muitos mundos.

Diversidade e Identidade.

Durante muitos anos, de fato durante os últimos dois séculos, o pensamento humano e também dos movimentos de resistência foi construído sob algumas premissas básicas. O pensamento moderno, sob o influxo da ilustração, do pensamento newtoniano e depois do positivismo gerou a visão de que poderiamos construir a verdade a partir da racionalidade. Construiu-se a idéia de que poderiamos encontrar através da ciência, a verdade, e com ela, construir leis universais do funcionamento da história. Nossos movimentos, os movimentos de resistência históricos adotaram esta visão. Se encontrávamos e compreendíamos esse funcionamento, só era questão de seguir as pautas dessa verdade científica para construir a revolução.

Esta idéia sobre a verdade, a racionalidade e a ciência, gerou um marco de pensamento patriarcal, linear, mecanicista, teleológico, que ajudou muito na construção de uma modernidade desenvolvimentista e em constante expansão. A idéia de progresso, desenvolvimento e crescimento se adotou pela humanidade, pela esquerda e por nossos movimentos como um fato sem questionamento da evolução humana.

Mas esse pensamento ajudou muito ao funcionamento de um sistema que precisamente precisa crescer sem obstáculos. É o funcionamento do capitalismo. O capitalismo cresce, ou perece.

Esse pensamento está em crise hoje. O zapatismo se inscreve na desestruturação desse pensamento. É por que as bases deste pensamento modernizador, desenvolvimentista, positivista causaram vários estragos.

Os zapatistas, o zapatismo, propõem um mundo onde caibam muitos mundos. O zapatismo propõe a idéia da verdade múltipla frente às leis universais de verdades únicas. O EZLN disse que "as verdades nascem, crescem,desenvolvem-se, decaem e morrem". O pensamento dominante ou hegemônico ajudou a criar a idéia de que se tinha que homogeneizar,desenvolver, modernizar. Esta visão ajudou a arrasar a diferença, as culturas, "os diferentes" em nome de uma modernidade racional que avançava inexoravelmente para um mundo melhor. Os povos índios, mas não só eles, sofreram as conseqüências desta visão. O zapatismo se inscreve numa onda de novas idéias que nos dizem que a história não está escrita, que não necessariamente avançamos para um sistema melhor, e que o múltiplo e o diverso não são um obstáculo, senão que as diferenças são uma riqueza a proteger, a preservar. A diversidade nos ajuda a avançar. Um mundo onde caibam muitos mundos é a proposta de um outro mundo onde convive, em unidade, a diversidade, sem que uns se imponham a outros. Um mundo onde cabem todos, não é só uma idéia utópica do futuro, é uma forma de ver-nos, sonhar-nos, falar-nos entre nós. Hoje a política não se faz mais em nome de verdades científicas. O zapatismo é parte desta nova forma de pensar, que dizemos, é pensar ao inverso.

2) Que o que mande, mande obedecendo.

Estado e Poder.

É suficiente tomar o poder político?, concebido este como o poder do estado, o poder que se considerava como o único e o mais importante. O zapatismo, e nós, cremos que não. Que poder do estado é um poder inevitável, sim, mas não é todo o poder, nem é todo o político. Mais importante que quem esteja no poder dizem os zapatistas é que quem está no poder, mande, mas mande obedecendo. Esta idéia com que o zapatismo contribui, é de novo uma idéia ao inverso. A esquerda construiu uma idéia providencial e heróica da tomada do poder. O caminho da transformação ou da queda do capitalismo é uma grande odisséia, quase sempre encabeçada por um herói, enche de dor e sofrimento onde ao final do caminho, a vitória,isto é, a tomada do poder é a grande chegada, o grande dia, o momento em que se bifurca a história em duas grandes etapas. Num antes e num depois. A partir daí, e SÓ a partir daí, a história e o homem começavam a mudar. É o que Immanuel Wallerstein chama a estratégia de dois passos: tomar o poder e depois, e só depois, mudar ao mundo. A estratégia dos movimentos de resistência girava ao redor desta rota. Era uma estratégia digamos, estadocêntrica.

Mas esta idéia também se deteriorou, ainda que siga sendo muito importante. O zapatismo, ao propor que o que mande, mande obedecendo, reconhece a idéia da representatividade, mas com novos e coletivos controles democráticos. Concebe às direções e as lideranças como resultado de um processo coletivo democrático, não como a vanguarda clarificante que deve guiar-nos ao grande dia da transformação. A história do zapatismo também está cheia de exemplos de como o estado e sua força não são o único referencial e muitas vezes nem o mais importante em sua estratégia política. Evidente que há conflito frente ao estado dominante e as elites mexicanas que governam. O levante armado deixa claro isto. Mas seu atuar parece ser uma lógica muito mais ampla, sua agenda não só define o conflito estatal. Há outras áreas, "outra coisa" dizem os colegas zapatistas, que é desenvolver suas próprias forças, dialogar com o resto, pensar nas alternativas, falar delas. Tudo isso não necessariamente está unido de forma direta com o poder estatal.

Mandar obedecendo significa repensar o poder. Não é só uma proposta ética, senão uma proposta que desarticula a lógica do poder tal e como a conhecemos. Desarticular as regras do poder implica evidentemente a luta acima, contra os senhores do poder e a exploração mas também abaixo, entre nós, rompendo os esquemas de dominação em nossas famílias, trabalho e escolas; entre homens e mulheres, entre adultos e jovens, entre raças, em nossas organizações e coletivos, em nossas relações cotidianas. É gerar uma nova relação que permita a construção de um novo poder que decida de baixo para acima, que se autogoverne e determine a si mesmo. Implica construir uma ordem social alternativa e global.

Esta proposta é crítica do sistema imperante em seu conjunto e não só do governo da vez. É uma revisão à lógica do sistema e não só uma crítica aos dominadores. Mandar obedecendo significa também a subordinação do estado aos povos. Implica a democratização cada vez mais profunda do novo poder e o correspondente processo de devolução progressiva das funções usurpadas pelo estado à sociedade mesma. Não há que tomar o poder, senão construí-lo. Não há que tomar o sistema por assalto, há que deconstruí-lo e nesse processo experimentar, desenhar, sonhar, um sistema alternativo.

3) Somar e não rachar. Construir e não destruir. Convencer e não vencer. Representar e não suplantar.

Nova forma de fazer política.

Mas, como construir então um sistema alternativo global? O zapatismo com o "mandar obedecendo", e o "mundo onde caibam muitos mundos" propõe algumas pistas para isso. Propõem um terceiro elemento. A construção de um novo mundo, de um mundo outro, precisamente de outra política. A história da esquerda de nossos movimentos está cheia de tristes exemplos onde os piores vícios do poder dominante foram reproduzidos em nossas organizações, em nossas decisões, em nossas estratégias. É uma história que separava os meios dos fins. Se procurávamos um mundo melhor para todos, o socialismo, o comunismo ou a revolução a secas, isto justificava qualquer meio para se chegar a isso. Hoje, através da história, sabemos que este pensamento pragmático deixou muito que desejar e que as cooptações, a corrupção, o sectarismo, o vanguardismo, o setorialismo, o autoritarismo abalaram a credibilidade e a esperança dos povos que viram seus dirigentes revolucionários converter-se em ditadorezinhos em seus partidos, em suas organizações. Que viram enriquecer-se às classes que falavam de um mundo igualitário. Que viram reproduzir o poder que tanto se criticava. Os que se diziam dominados, convertiam-se em novos dominadores. Uma nova ética, fundada em espaços coletivos é condição imprescindível para um novo mundo.
Por isso o zapatismo propõe aos movimentos somar e não rachar, acostumados estes à divisão, à discussão estéril. Propõe construir e não destruir,acostumada a esquerda a dilapidar todo o feito de mudança para controlar tudo o que quer. O zapatismo propõe convencer e não vencer, acostumada a esquerda aos piores vícios do acordo a escuras, da votação que achata, do
acordo imposto. Propõe representar e não suplantar; construídas as organizações e os partidos com as vozes de muitos que na prática costumam ser a voz de um só.

Sem novos movimentos, que se desenvolvam, experimentem e atuem dentro de um novo marco ético, o outro mundo se afasta, com o descrédito frente aos olhos dos povos.

4) Há que caminhar ao ritmo do mais lento.

Revolução e sujeito de mudança.

Eliminando o velho vanguardismo, esse que dizia que se uma elite clarificada tinha o programa e a estratégia adequadas, as massas iriam correndo abraçar a revolução, o zapatismo entende mais a nossas estratégias de resistência e construção de alternativas como um processo. A imagem "ultra" de empurrar metas que ainda não são realizáveis se derruba frente à idéia de que há que caminhar ao ritmo do mais lento.
Eliminando de novo a intenção de impor idéias e estratégias que por muito corretas, por muito avançadas que sejam não podem ser cristalizadas sem o outro, sem os outros, que devem compartilhar, entender e enriquecer ditas propostas. Caminhar ao ritmo do mais lento é construir um processo coletivo para caminhar, e não correr deixando ao resto atrás.

Por outro lado, o mesmo levantamento rompia com o esquema do sujeito revolucionário. Enquanto uma parte da esquerda se nega a reconhecer que não só há um ator de transformação, o pensamento e a ação zapatista são um exemplo entre muitos outros de que nenhum setor tem um papel histórico predeterminado. E mais ainda, que a classe operária industrial, à que se atribuía um papel protagônico teve posições bem mais conservadoras frente à emergência de novos atores como os povos índios, os trabalhadores desempregados ou os movimentos de mulheres e pelo ambiente.

5) Há que caminhar perguntando.

Diálogo.

Finalmente os zapatistas dizem que há que caminhar perguntando. Toda a concepção zapatista é uma forte crítica ao pensamento ortodoxo de esquerda, mas mais ainda, ao pensamento moderno ilustrado. Caminhar perguntando implica o reconhecimento dos outros como atores para as alternativas e a construção, digamo-lo assim, revolucionária. Caminhar perguntando se inscreve numa visão profundamente democrática interna e externa dos atores. Implica reconhecer que podem existir outras estratégias, implica reconhecer que devem mediar estratégias de consulta e consenso ao interior de nossos movimentos e que o diálogo como forma de articulação é um veículo poderoso entre os movimentos para desarticular muitas formas de dominação de maneira radical.

A ação do EZLN está cheia de exemplos de caminhar perguntando: Desde processo de consulta e construção interna do zapatismo, até os processos de encontro nacional e internacional que o EZLN convocou em inumeras ocasiões aos movimentos. Em todos os casos, das cinco contribuições que comentamos aqui, a praxe zapatista representa um experimentar constante.
Não desejamos mitificar aqui a ação zapatista. Sabemos e conhecemos suas próprias limitações, contradições e erros. Parece-nos, no entanto, que o movimento zapatista faz contribuições ao pensamento crítico que não podemos deixar de lado porque são assinalamentos profundos de uma reconstituição de nossas formas de pensar e construir nosso horizonte utópico. Estas cinco contribuições se entrelaçam cada uma, estes cinco sonhos são como as cinco pontas de uma estrela, a zapatista que abre uma discussão universal sobre o poder, a diversidade, o estado, a revolução e as formas de fazer política. A estrela vzapatista não é um novo dogma. É uma fissura no pensamento hegemônico para pensar ao inverso e para olhar do outro lado do muro.

Gretas e fissuras do gordo muro capitalista

Retomemos, finalmente nossa idéia inicial. Voltemos ao muro sistêmico do qual falávamos ao começo desta intervenção. Olhemos novamente no muro,afastemos a vista. Saiamos do zapatismo. Procuremos finamente por toda a parede do capitalismo. Veremos, se soubermos ver, que há mais fissuras e coarteaduras. O Exército Zapatista de Libertação Nacional é um sintoma, um sinal, uma pista, um sinal entre muitas outras. Uma greta entre muitas outras.

Frente aos limites do sistema formal, frente à pobreza e a exclusão uma pequena parte dos povos resiste, mas também experimenta com novas formas de fazer relação humana. Os sem terra, os zapatistas, os piqueteros territorializam suas resistências, criando pequenas zonas, pequenas ilhas de libertação. Fissuras do sistema. Erros da Matriz. Outros mundos, "outras coisas" como dizem os zapatistas. Nesses espaços que não chegam a erosionar o funcionamento geral sistêmico, digamos a fortaleza do muro, no entanto, opõe-se uma ação e um pensamento diferente ao hegemônico. São laboratórios de experimentação: juntas de bom governo, assembléias populares, terras tomadas que produzem; são sinais, pistas de como se olha a vida, o mundo, do outro lado do muro. Frente à individualização e a concorrência se opõem o comunitarismo, a solidariedade e a cooperação. São espaços onde se deconstrói o pensamento dominante. São espaços onde vemos alguns sinais de como seria uma nova educação, novas relações de intercâmbio e de comércio, formas experimentais de produzir cultura e informação e o mais importante, formas novas de poder coletivo. Nessas experiências, mas também em muitas outras em todo o planeta, não há distinção entre lutas políticas e sociais, entre lutas materiais e
culturais. Igual se põe a mover a produção que questionar as relações hierárquicas e patriarcais. Igual há formas políticas de resistência frente ao capital e o neoliberalismo que reivindicação da identidade cultural local. Igual se luta local e nacionalmente que globalmente. Nesses espaços se começou a derrotar o poder simbólico que mantinha atados aos grupos subalternos. A greta no muro começou a alargar-se.

Pensamos que essas fendas, essas fissuras, essas ilhas de libertação podem crescer, podem articular-se. Podemos, como diz o Subcomandante Marcos, fazer de nossas ilhas uma barca para ir encontrar-nos. Uma fissura que se reúne com outra pode provocar que se desmorone uma parte do muro. Centenas de pequenas gretas, enredadas entre si, de muitas formas, de muitos tamanhos poderia quiçá, talvez, derrubar e fazer estourar ao muro por completo.

Não o sabemos com certeza. Quiçá valha a pena tentá-lo. Quiçá sim há algo melhor por trás do muro. Quiçá seja esse outro mundo, que dizemos, que é possível.

Enrique Pineda é integrante da agrupação mexicana Jovens em Resistência Alternativa e recém egresso da carreira de sociologia na Universidade Autônoma Metropolitana Xochimilco.
Contato: resistenciaglobaljra@yahoo.com.mx

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